quarta-feira, dezembro 17, 2008

Controvérsia

Leo (Jackson Antunes) passou a novela A Favorita quase toda batendo e maltratando em Catarina (Lilian Cabral) e na filha do casal. As duas sofreram durante a vida inteira com a rudeza do homem que simboliza, na trama, o presente machismo da nossa sociedade.


Todos os dramas das novelas da Globo trazem um tema social a fim de polemizá-lo.
A justificativa de levantar a discussão sobre o assunto recebe o nome de responsabilidade social. Seria mesmo responsabilidade se esta fosse feita com compromisso e continuidade.
O termo responsabilidade social neste caso é sinônimo de audiência, especialmente no caso das novelas. Para conquistar a empatia do público que após ser fisgado pela história corre para chegar em casa e não perder nenhum capítulo, a trama deve ser exacerbada, potencializada, levada ao extremo para comoção total.
Por isso, a seqüência da história da família de Léo e Catarina é preenchida de acontecimentos cada vez mais trágicos e absurdos, fazendo com que o telespectador tenha cada vez mais ódio do homem e simpatia pela mulher, na qual gradativamente vai tomando coragem para desafiá-lo.
Simplificando, a mulher não pode aceitar este tipo de comportamento que ainda sobrevive em muitas famílias e deve acreditar no seu potencial que foi anulado pelo machismo do marido.

No entanto, eu poderia agora enumerar tantos outros preconceitos e superstições nas entrelinhas do discurso de A Favorita, lançando uma controvérsia na qual poucos ficam atentos.
Mas, foi em Malhação, a eterna novela teen, que um diálogo entre duas protagonistas me fez pensar sobre o assunto, já que há influencia direta na formação dos adolescentes. Não sei o nome das personagens e pouco conheço o contexto desta temporada, mas o fato é que duas garotas conversavam sobre o pé na bunda que uma delas tinha tomado de um namorado por ter “falhado” com ele. Pelo o que entendi, ela gostava de ficar com vários meninos e um dos “ficantes” quando a “coisa” ficou mais séria, tinha vergonha de aparecer ao lado dela em público. A amiga dispensada fala para outra algo semelhante: ...pois eu vou mudar e quero ver se ele não vai querer andar comigo e me exibir pros amigos dele...



O troféu - a personagem Felipa.



O pensamento de que a mulher em algum momento serve de troféu para o homem é tão machista quanto o da agressão. Em ambos os casos as fêmeas continuam como uma espécie de propriedade dos machos.

Essas são as pequenas coisas, intensificadas todos os dias, que dão continuidade ao machismo, ou em outros casos ao femismo, que é o machismo ao contrário, tão condenável quanto.


O preconceito e o machismo só mudam de formato, vão se adaptando ao tempo em que vivemos. Hoje já é absurdo homem agredir mulher (aliás, agressões nas novelas só são atos condenáveis se quem agride é “do mal” e o agredido é do bem, porque no caso contrário é vingança merecida).

É claro que só citei aqui dois exemplos, mas considero o suficiente para ilustrar o texto. Pode-se fazer essas observações todos os dias em novelas, em outros programas e na publicidade.

As novelas se transformaram na institucionalização dos comportamentos da nossa sociedade, assim como nossa sociedade tem como espelho as tramas globais. O ideal seria que pelo menos a maioria das pessoas pensasse sobre isso e lançasse olhares mais críticos e atentos.
Mas isso não vai mudar, é a lei selvagem da indústria cultural.

5 comentários:

Anônimo disse...

O machismo ao contrário é o femismo, e não o feminismo.

michele do carmo disse...

Muito obrigada, Sr.(a) Anônimo! Não lembrava disso. ; )
Pena que esse foi o unico comentário feito.
;(

Euzinha disse...

Ainda em "A Favorita": quando o prefeito da cidade bateu na esposa pq ela estava traindo ele, todo o público espectador aplaudiu. Aí eu me pergunto: o Leo maltratar a Catarina é feio, mas o Elias (prefeito chifrudo) bater na Dedina (primeira dama traíra) é bonito?
Na minha opinião qualquer tipo de agressão deve ser punida...

Anônimo disse...

neologismos inúteis...
toda e qualquer violência deveria ser repreendida, seja contra homem, mulher, animal, planta, cultura........

michele do carmo disse...

Oi Anônimo e Euzinha,
Esse ponto colocado por vcs é exatamente o que eu quero dizer na parte:" (aliás, agressões nas novelas só são atos condenáveis se quem agride é “do mal” e o agredido é do bem, porque no caso contrário é vingança merecida)"...

Pura hipocrisia...