Eduardo Coutinho conseguiu registrar em doc o que já de conhecimento popular geral: os velhos são mais sábios. Ainda mais quando se trata de um povo judiado pela seca e pobreza do sertão da ParaÃba. A pequena São João do Rio Peixe, no sÃtio Araçás, é mais uma dessas comunidades perdidas na estiagem nordestina, mas como tantas outras guarda uma história de vida velada por moradores que já passaram por tudo nessa vida para sobreviver. O documentário O Fim e o PrincÃpio nasceu “do nadaâ€�. No estilo Cinema Novo menos tosco, Coutinho baixa o santo forte de Glauber Rocha, e com uma equipe, coloca a câmera da mão e ruma atrás de histórias. Sem tema definido, sem pré-produção, sem roteiro e aparentemente de mente aberta para o que der e vier o diretor encontra o cenário perfeito para o doc. Se isso não acontecesse, o tema seria justamente essa busca por pessoas com histórias interessantes.
Em Araçás, a produção do filme encontra Rosa, professora da comunidade que abriga pouco mais de 80 famÃlias. Rosa guia o filme. Literalmente faz um trabalho de produção. Através de um mapa da comunidade feito à mão ela traça os caminhos que a equipe irá percorrer. Coutinho instrui Rosa em diálogos que, para deixar o filme com cara de improviso, foram mantidos na edição. Rosa é peça chave do filme, sem ela a comunicação entre os “dois mundosâ€� iria ser árdua e talvez impossÃvel. De prima, essa relação parecia difÃcil, deixar a vontade em frente à câmera quem pouco viu na vida algo além da seca é realmente um trabalho em tanto. Com paciência, respeito e sorte, aos poucos, os moradores foram se soltando e foi definido o tema do filme: o mundo particular de cada um. Como a maioria dos moradores é idosa, contar casos dessa vida de Deus não foi muito problema. Cada prosa é uma lição de vida, uma vida cheia de certezas e incertezas sobre a própria vida, a fé e a morte. Cada prosa é uma poesia. Cada prosa faz brilhar os olhos que expressam o cansaço, a experiência e a sabedoria. Cada prosa mostra um universo confidencial, cheio de segredos. Cada prosa mostra um poder de oratória de quem mal estudou. Cada prosa mostra um vocabulário alegórico, rico, próprio. O valor das pequenas coisas, da famÃlia, os sÃmbolos, os significados, expressões, as constatações e a filosofia popular são capazes de arrepiar a espinha de quem se entrega de corpo e alma ao mundo de Araçás.
Como se não bastasse, a fotografia, a simplicidade na edição e um silêncio comovente fizeram que O fim e o PrincÃpio entrasse na minha lista das obras que mais me causaram abalo moral. Isso pensando como simples apreciadora do filme. Como aspirante a documentarista, a obra me inspira, me faz querer correr atrás de uma câmera e me faz dizer de boca cheia: “eu nasci para fazer issoâ€�.
Dica: Ver com legenda. É deveras complicado entender as particularidades da linguagem.
*Um dos moradores solta essa frase.
Você pode encontrar O Fim e o PrincÃpio na Canal 3 Videolocadora.
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